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Técnica Less Invasive Surfactant Administration (LISA)

8 minutos

Conheça mais sobre o médico:

Dra. Jucille Meneses de Oliveira | CRM-PE 8.563

Doutora em Saúde Materno-Infantil pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). Professora adjunta da disciplina de Pediatria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Coordenadora da Residência em Pediatria com área de atuação em Neonatologia do IMIP. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Gestante de 24 anos de idade, G1 P0 e com idade gestacional de 27,2 semanas, é admitida com pré-eclâmpsia. Foram prescritos hipotensores, sulfato de magnésioe corticoterapia antenatal, indicando-se parto cesáreo devido a picos pressóricose a sofrimento fetal. Recém-nascido (RN) do sexo feminino, com IG de 27,4 semanas, peso ao nascimento de 1.020 g, desconforto respiratório e FC de 90 bpm. Foi necessário realizar VPP com ventilador mecânico manual em T com FiO2 a 40% e houve boa resposta. RN apresentou Apgar de 5 e 8 e evoluiu  com desconforto respiratório de leve a moderado; foi estabilizada com CPAP nasal PEEP + 6 cm H2O e FiO2 30% e encaminhada para a UTI neonatal. Com 1 hora de vida, ainda com desconforto respiratório, RN apresentou queda de saturação e houve necessidade de aumentar a FiO2 para 0,35, de modo a manter a saturação de oxigenação de 92%. Nesse momento foi indicada a terapia à base de surfactante com alfaporactanto, na dose de 200 mg/kg, técnica LISA. O procedimento transcorreu sem intercorrências. Iniciou-se citrato de cafeína, EV, 20 mg/kgcomo dose de ataque. Com 3 horas de vida, a RN encontra-se em CPAP nasal com FiO2 0,25, PEEP + 6 cm H2O, mantendo-se saturação de oxigenação de 94%.

Indicação do surfactante pulmonar na SDR de RNPT

Uma das principais causas de falha da CPAP nasal é a não indicação do surfactante em tempo oportuno. Estudos têm demonstrado que a necessidadede FiO2 ≥0,30, com pressão expiratória final positiva (PEEP) ≥6 cm H2O para manter a saturação-alvo pré-ductal de 91%-95%, é fator preditor de falha da CPAP nasal.¹ No caso acima, a recém-nascida pré-termo (RNPT) necessitava de FiO2 35% para manter uma saturação de oxigênio adequada, portanto, nesse momento, está indicada a terapia com o surfactante.

Dose Inicial do Surfactante Pulmonar

Atualmente, a dose inicial preconizada para a terapia com surfactante é de200 mg/kg/dose de alfaporactanto. Essa dose tem-se mostrado efetiva em diminuir o desfecho composto de mortalidade e a incidência de displasia broncopulmonar, além de reduzir significativamente a necessidade da segunda dose de surfactante, em comparação com 100 mg/kg/dose.2 No caso clínico, essa é a dose preconizada.

Terapia com surfactante pela técnica LISA (Less Invasive Surfactant Administration)

Em 1992, Verder e col. foram os primeiros a descrever a utilização de um cateterfino para administração de surfactante pulmonar em RNPTs com SDR que apresentavam respiração espontânea e se encontravam estabilizados em CPAP nasal, na tentativa de evitar a intubação traqueal e a necessidade de ventilação mecânica.No entanto, alguns estavam convencidos de que a ventilação com pressãopositiva era essencial para otimizar a melhor distribuição do surfactante, por issoa técnica INSURE (intubação-surfactante-extubação), que utiliza a pressão positiva, foi mais aceita e disseminada por todo o mundo.³
 
Contudo, nos últimos anos, com o uso crescente de corticoide antenatal e CPAP nasal precoce, a técnica LISA (less invasive surfactant administration), menos invasiva, que consiste em administrar surfactante através de um cateter fino, tem sidobastante adotada.⁴ A respiração espontânea do paciente ajuda a distribuir o surfactante pulmonar, sem a necessidade de uso de pressão positiva. Estudos demonstram que com essa técnica há mais redução da necessidade de ventilação mecânica e desfechos associados, quando comparada com a técnica INSURE.⁵
 
Neste caso clínico, a RNPT em CPAP nasal apresenta respiração espontânea e está em condições de submeter-se à técnica LISA para administração do surfactante. A seguir, abordaremos as etapas da técnica LISA.

Equipe e materiais⁴

  1. Neonatologista e equipe treinada. 
  2. RNPT deve permanecer em CPAP nasal durante todo o procedimento. 
  3. Monitorização contínua por oximetria. 
  4. Materiais: 
    a) Laringoscópio com lâmina adequada; 
    b) Material de aspiração; 
    c) Cateter fino endotraqueal (Figura 1); 
    d) Seringa de 5–10 mL; 
    e) Medicamentos: 
    e1) Alfaporactanto 200 mg/kg;
    e2) Dexmedetomidina 0,3–0,5 mcg/kg, 5–10 min antes do procedimento. 

Procedimento

RNPT em CPAP nasal PEEP ≥6 cmH₂O e respiração espontânea. Procede‑se com analgesia, laringoscopia e inserção do cateter fino até a marcação das cordas vocais. O cateter é fixado no lábio superior, e o surfactante é administrado em 3–4 alíquotas ao longo de 30–60 segundos. Após o término, injeta‑se 1 mL de ar e retira‑se o cateter.⁶

 

Refluxo discreto de surfactante e quedas de saturação podem ocorrer, sendo geralmente transitórios. Se necessário, VPP é aplicada até estabilização.⁶ 

Conclusão

A técnica LISA possui maior nível de evidência e recomendação (A1), segundo o Consenso Europeu de 2022⁷. Ela associa suporte ventilatório não invasivo com administração eficaz e menos invasiva de surfactante, reduzindo necessidade de intubação e suas morbidades. 

Referências

1. Dargaville PA, et al. Continuous positive airway pressure failure in preterm infants: incidence, predictors and consequences. Neonatology. 2013;104(1):8-14. 2. Lanciotti L, et al. Respiratory distress syndrome in preterm infants of less than 32 weeks: what difference does giving 100 or 200 mg/kg of exogenous surfactant make? Pediatr Pulmonol. 2022;57(9):2067-73. 3. Kribs A. Minimally Invasive Surfactant Therapy and Noninvasive Respiratory Support. Clin Perinatol.2016;43(4):755-71. 4. Herting E, Hartel C, Gopel W. Less Invasive Surfactant Administration: best practices and unanswered questions.CurrOpin Pediatr.2020;32(2):228-34. 5. Aldana-Aguirre JC, Pinto M, Featrherstone RM, Kumar M. Less Invasive Surfactant Therapy Versus Intubation for Surfactant Delivery in Preterm Infants with Respiratory Distress Syndrome. Arch Dis Chil Fetal Neonatal. Ed. 2017;102(1): F17-F23. 6. Chahin N, Rozycki H. New modes of surfactant delivery. Paediatr Respir Rev. 2022;43:38-43. 7. Sweet DG, et al. European consensus guidelines on the management of respiratory distress syndrome: 2022 update. Neonatology. 2023;120(1):3-23. 

Material destinado aos profissionais habilitados a prescrever ou dispensar medicamentos.
 
ID DAM 18456 -  05/26 

8 minutos